30 de novembro de 2007

Álcool

Tenho vontade de pegar uma gillette e anotar o que você me disse sobre as nossas imensas diferenças. E escrever umas linhas sobre as coisas caminharem assim, esse estranho fatalismo das coisas que dão errado. Eu nunca quis que você me acompanhasse até estes lugares. Se você quer saber eu mesmo não estava lá. Eu pensava em você o tempo todo quando estava com eles. E pensava se você pensava em mim. E não importa o que pareça quando eu, vencido pelo menino, te chamo pra conversar. Eu nunca te pedi pra parar de comer carne, nunca pedi pra você visitar minha família, nunca te pedi pra usar aliança. Nunca sugeri nada sobre os seus hábitos. E pensar naquela ocasião em que você foi solidária comigo diante de uma piada do dono do bar. Sou capaz de sorrir de olhos úmidos me lembrando. Não que o comentário tenha sido tão incômodo, mas porque você pareceu ter ficado incomodada e pareceu que uma linha feita de afinidade cruzava as outras sobre a mesa.  Eu me lembro das mesas com as garrafas vazias, do meu copo que permanecia vazio e ocioso e das conversas que tínhamos, nós dois, "tão diferentes um do outro", e que nunca eram, como outras, vazias e ociosas. Eu via até certa beleza nisso.

Querida, quanto valor em te ouvir dizer que se sente a vontade comigo, quanta beleza estranha a este mundo. Não quero crer que os momentos que redimem a existência são só mais uma piada que ela nos prepara.

(...)

Dói como se estivéssemos obrigando as coisas a darem errado, seguindo algum roteiro idiota sobre tudo mudar, as tragédias intrínsecas da vida e o carinha que sofre e os mal-entendidos.

Fui feliz enquanto os pontos negros foram se esclarecendo. Trouxe outros tantos da nossa última conversa e espero que se esclareçam também. Passam por você algumas das melhores memórias da minha vida. Eu te amo.


 (2005)

Sem comentários:

Enviar um comentário